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Sono

Sono REM e sono NREM: quais são as diferenças?

Oxton Education 12 min de leitura 2 leituras

O sono não é um estado único e uniforme. Ao longo de uma noite, o cérebro e o organismo passam por diferentes estágios, cada um com características próprias de atividade cerebral, tônus muscular, movimentos oculares, funcionamento autonômico e processamento de informações. De forma geral, o sono é dividido em dois grandes estados: sono NREM, sigla para non-rapid eye movement, e sono REM, de rapid eye movement. Essa divisão é fundamental para compreender como o cérebro organiza o repouso e por que diferentes momentos da noite exercem funções distintas.

O sono NREM corresponde à maior parte do tempo total de sono e é subdividido em três estágios: N1, N2 e N3. Já o sono REM constitui um estado neurofisiológico particular, marcado por intensa atividade cerebral, movimentos rápidos dos olhos e acentuada redução do tônus muscular. Durante uma noite habitual, esses estados se alternam repetidamente em ciclos que costumam durar aproximadamente entre 90 e 120 minutos, embora exista variação entre indivíduos e ao longo da vida.

No início da noite, predominam os estágios mais profundos do sono NREM, especialmente o N3. À medida que a noite avança, o sono REM tende a ocupar períodos cada vez mais longos. Isso significa que as primeiras e as últimas horas de sono não são equivalentes do ponto de vista fisiológico. A estrutura interna do sono muda ao longo da noite, e essa organização temporal é chamada de arquitetura do sono.

O estágio N1 representa a transição entre vigília e sono. É um período relativamente breve e superficial, no qual a pessoa ainda pode ser despertada com facilidade. Nesse estágio, a atividade elétrica cerebral começa a desacelerar, a atenção ao ambiente diminui e podem ocorrer sensações transitórias, como pequenos sobressaltos musculares ou imagens mentais fragmentadas. Embora seja um estágio importante do processo de adormecimento, ele ocupa uma proporção relativamente pequena do sono total.

O estágio N2 é mais estável e representa uma parcela considerável da noite. Durante essa fase surgem eventos característicos no eletroencefalograma, como os fusos do sono e os complexos K. Os fusos do sono são breves oscilações da atividade elétrica cerebral e estão associados a interações entre o tálamo e o córtex cerebral. Esses fenômenos têm sido relacionados à proteção do sono contra estímulos externos, à consolidação da memória e à plasticidade neural.

No estágio N2, a consciência do ambiente já está bastante reduzida, mas o cérebro continua processando determinados estímulos. Isso mostra que o sono não corresponde a um bloqueio completo da informação sensorial. Mesmo durante o sono, o sistema nervoso mantém algum grau de monitoramento do ambiente e pode responder de maneira seletiva a estímulos relevantes.

O estágio N3, por sua vez, representa o sono profundo. Ele também é conhecido como sono de ondas lentas devido ao padrão característico observado no eletroencefalograma. Nesse estágio, grandes populações de neurônios apresentam atividade sincronizada, com ondas lentas de alta amplitude. O N3 predomina principalmente nas primeiras horas da noite e está associado a uma redução acentuada da responsividade ao ambiente.

Do ponto de vista fisiológico, o sono profundo é frequentemente relacionado à recuperação corporal e neural. Durante esse período, o organismo apresenta redução da frequência cardíaca e da pressão arterial, maior predominância da atividade parassimpática e menor demanda metabólica em comparação com a vigília. Além disso, diferentes mecanismos de regulação hormonal e recuperação tecidual ocorrem de maneira coordenada com essa fase do sono.

O sono NREM, especialmente o N3, também exerce papel relevante na consolidação da memória. Estudos sugerem que durante o sono profundo o cérebro reativa padrões de atividade associados a experiências recentes, favorecendo a reorganização de informações e sua integração a redes de memória mais estáveis. O hipocampo e o córtex cerebral participam dessa dinâmica, permitindo que determinadas informações adquiridas durante a vigília sejam reorganizadas ao longo da noite.

Esse processo pode ser entendido como parte de um mecanismo maior de plasticidade neural. Durante o dia, novas experiências modificam as conexões entre os neurônios. O sono parece contribuir para regular essas conexões, preservando aquelas que foram relevantes e reduzindo parte do fortalecimento sináptico acumulado durante a vigília. Essa hipótese, conhecida como homeostase sináptica, propõe que o sono ajuda a manter o equilíbrio entre plasticidade e estabilidade neural.

O sono REM é bastante diferente.

Durante essa fase, a atividade elétrica cerebral aumenta e pode se assemelhar, em vários aspectos, à atividade observada durante a vigília. Por esse motivo, o REM já foi descrito como um “sono paradoxal”: o cérebro encontra-se altamente ativo, enquanto o corpo permanece amplamente imóvel.

Uma das características mais marcantes do sono REM é a presença de movimentos rápidos dos olhos. Esses movimentos ocorrem em episódios e deram origem ao nome dessa fase. Ao mesmo tempo, há uma redução intensa do tônus da musculatura esquelética, fenômeno denominado atonia muscular.

Essa atonia é produzida principalmente por circuitos localizados no tronco encefálico, que inibem a atividade de neurônios motores da medula espinhal. Como consequência, grande parte dos músculos voluntários fica temporariamente impossibilitada de executar movimentos amplos.

Esse mecanismo é funcionalmente importante porque o sono REM é associado a sonhos mais vívidos e complexos. Sem a atonia muscular, muitos dos movimentos imaginados durante os sonhos poderiam ser executados fisicamente.

Apesar dessa inibição motora, alguns músculos permanecem ativos. A musculatura respiratória continua funcionando, e os músculos responsáveis pelos movimentos oculares continuam livres para se movimentar. Além disso, o sistema nervoso autônomo apresenta maior variabilidade do que no sono NREM.

Durante o REM, frequência cardíaca, pressão arterial e respiração podem tornar-se mais irregulares. Isso contrasta com o padrão mais estável observado no sono NREM profundo. O sono REM, portanto, não representa um período de repouso fisiológico homogêneo, mas um estado altamente dinâmico.

As diferenças entre REM e NREM também são evidentes do ponto de vista neuroquímico. Durante a vigília, diversos sistemas de neurotransmissores mantêm o cérebro em estado de alerta. Noradrenalina, serotonina, histamina, acetilcolina e orexina participam dessa regulação. Ao longo do sono, a atividade desses sistemas muda.

Durante o sono NREM, ocorre redução gradual da atividade de muitos sistemas associados à vigília. No REM, entretanto, alguns sistemas, especialmente os colinérgicos, voltam a apresentar elevada atividade, enquanto neurônios noradrenérgicos e serotoninérgicos permanecem relativamente silenciosos.

Essa configuração química específica contribui para as características particulares do REM, incluindo intensa atividade cerebral, sonhos vívidos e alterações autonômicas.

Outra diferença importante está relacionada ao padrão dos sonhos. Embora seja possível sonhar tanto no sono NREM quanto no REM, os sonhos relatados após despertares durante o REM tendem a ser mais vívidos, emocionais, narrativos e visualmente complexos. Já os sonhos associados ao NREM podem ser mais fragmentados, conceituais ou relacionados a pensamentos.

Essa diferença não é absoluta, mas revela que o conteúdo mental durante o sono varia de acordo com o estado neurofisiológico em que o cérebro se encontra.

Do ponto de vista da memória, REM e NREM parecem exercer funções complementares.

O sono NREM profundo está fortemente relacionado à consolidação de memórias declarativas, como fatos e acontecimentos, enquanto o sono REM tem sido associado ao processamento de memórias emocionais, habilidades motoras e integração de informações complexas. Entretanto, é importante evitar interpretações excessivamente simplificadas.

As evidências atuais sugerem que a consolidação da memória ocorre por meio da interação entre diferentes fases do sono, e não por uma divisão rígida em que cada estágio teria uma única função. NREM e REM participam de uma sequência coordenada de processamento.

A alternância entre essas fases ao longo da noite parece ser parte essencial da arquitetura saudável do sono.

Esse ponto ajuda a explicar por que a fragmentação do sono pode ser prejudicial mesmo quando a duração total parece adequada. Uma pessoa pode permanecer oito horas na cama, mas se apresentar múltiplos despertares, apneias, movimentos frequentes ou outras interrupções, os ciclos NREM-REM podem ser desorganizados.

Consequentemente, o indivíduo pode não permanecer tempo suficiente em determinados estágios para que os processos fisiológicos associados ocorram adequadamente.

Por isso, a qualidade do sono não depende apenas da duração. A continuidade e a arquitetura também são importantes.

Outro aspecto relevante é que a proporção entre REM e NREM muda ao longo da vida. Recém-nascidos apresentam uma quantidade muito maior de sono REM em comparação com adultos. À medida que o sistema nervoso amadurece, essa proporção diminui e a arquitetura do sono se reorganiza.

Na infância, adolescência, idade adulta e envelhecimento, o padrão de distribuição dos estágios sofre mudanças. Em adultos mais velhos, por exemplo, pode haver redução do sono profundo e aumento da fragmentação.

Essas alterações fazem parte, em certa medida, do processo de envelhecimento, embora problemas clínicos do sono também se tornem mais frequentes nessa faixa etária.

A organização dos ciclos também sofre influência do sistema circadiano. Embora a pressão homeostática do sono seja elevada após muitas horas de vigília, o relógio biológico determina em que momento do dia o organismo apresenta maior propensão ao sono ou à vigília.

O núcleo supraquiasmático, localizado no hipotálamo, exerce papel central nesse processo. Ele recebe informações sobre a luz ambiental por vias conectadas à retina e sincroniza diferentes ritmos fisiológicos ao ciclo de aproximadamente 24 horas.

Esse mecanismo influencia também a distribuição das fases do sono. O sono REM, por exemplo, apresenta forte modulação circadiana e tende a ocorrer com maior frequência nas horas finais da noite.

Isso ajuda a explicar por que reduzir sistematicamente as últimas horas de sono pode diminuir a exposição ao REM.

Da mesma forma, dormir poucas horas no início da noite pode reduzir o tempo disponível para o NREM profundo.

Assim, tanto o horário quanto a duração do sono podem influenciar sua composição interna.

Do ponto de vista clínico, compreender as diferenças entre REM e NREM é fundamental para o diagnóstico de diferentes distúrbios do sono.

Na apneia obstrutiva do sono, por exemplo, eventos respiratórios podem variar entre estágios e, em alguns indivíduos, tornam-se mais intensos durante o REM. Já no transtorno comportamental do sono REM, a atonia muscular típica dessa fase é reduzida ou ausente, permitindo que a pessoa execute movimentos relacionados ao conteúdo dos sonhos.

Outras condições também podem alterar a arquitetura do sono, modificando a quantidade ou a distribuição de determinados estágios.

A polissonografia é o principal método utilizado para avaliar essas diferenças de forma objetiva. Por meio do registro simultâneo da atividade elétrica cerebral, movimentos oculares, atividade muscular, respiração, frequência cardíaca e outros sinais fisiológicos, é possível identificar com precisão os diferentes estágios do sono.

Essa avaliação permite observar quanto tempo uma pessoa permanece em N1, N2, N3 e REM, quantas vezes desperta, quanto tempo leva para adormecer e como os ciclos se distribuem ao longo da noite.

Essas informações são particularmente importantes porque apenas a percepção subjetiva não é suficiente para determinar a arquitetura do sono. Uma pessoa pode acreditar que dormiu profundamente enquanto apresentou múltiplas interrupções, assim como pode considerar sua noite ruim mesmo tendo mantido uma estrutura fisiológica relativamente preservada.

Por isso, a ciência diferencia qualidade subjetiva do sono de parâmetros objetivos.

Apesar das diferenças claras entre REM e NREM, seria incorreto considerar um deles mais importante que o outro. Ambos fazem parte de um sistema integrado.

O sono NREM está relacionado a processos como redução da atividade metabólica, sincronização neuronal, consolidação de determinadas formas de memória e recuperação fisiológica. O sono REM apresenta intensa atividade cerebral, processamento emocional, reorganização de memórias e características autonômicas próprias.

A função global do sono depende da alternância entre esses estados.

Pode-se imaginar essa organização como uma sequência coordenada. O cérebro não permanece apenas em sono profundo durante toda a noite, nem apenas em REM. Ele transita entre diferentes estados porque cada um possui propriedades distintas e complementares.

Essa alternância é uma das características que tornam o sono tão complexo.

Quando observamos uma pessoa dormindo, dificilmente conseguimos identificar em qual estágio ela se encontra apenas pela aparência. Entretanto, internamente, a diferença pode ser enorme. Em um momento, grandes populações neuronais podem estar sincronizadas em ondas lentas. Em outro, o cérebro pode apresentar atividade intensa e sonhos complexos enquanto a musculatura permanece inibida.

O mesmo organismo, portanto, percorre diferentes estados fisiológicos durante uma única noite.

Esse conhecimento também reforça uma ideia importante: dormir não significa apenas “parar de estar acordado”.

Sono REM e sono NREM representam estados cerebrais específicos, com características eletrofisiológicas, neuroquímicas e funcionais próprias. A qualidade do sono depende de que esses estados ocorram de maneira organizada e relativamente contínua.

Compreender essa diferença ajuda a interpretar por que uma noite curta, fragmentada ou irregular pode produzir efeitos diferentes de uma noite completa e bem organizada. Não importa apenas quanto tempo dormimos, mas também como esse tempo é distribuído entre os diferentes estágios.

É essa arquitetura interna que permite ao cérebro alternar entre recuperação, reorganização, consolidação de informações e diferentes formas de processamento neural.

Em síntese, o sono NREM é marcado por redução progressiva da atividade de vigília, sincronização cerebral e presença de estágios que vão do sono leve ao profundo. O sono REM, por outro lado, apresenta intensa atividade cerebral, movimentos rápidos dos olhos, atonia muscular e maior variabilidade autonômica. Eles são diferentes, mas não concorrentes. Funcionam de maneira complementar.

Uma noite de sono saudável depende da alternância organizada entre ambos.

E é justamente essa alternância que demonstra que dormir é muito mais complexo do que simplesmente fechar os olhos e permanecer imóvel até o amanhecer.

Referências

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