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Curadoria editorial Oxton

As Fases do Sono e os Distúrbios do Sono

Imagem do artigo As Fases do Sono e os Distúrbios do Sono

O sono ocupa cerca de um terço da vida humana e, longe de ser um estado de simples inatividade, constitui um processo biológico ativo e altamente organizado, essencial à manutenção da saúde física e mental. Durante o repouso noturno, o organismo realiza tarefas fundamentais de reparação celular, consolidação da memória, regulação hormonal e fortalecimento do sistema imunológico. Compreender como o sono se estrutura e de que maneira ele pode ser perturbado tornou-se cada vez mais relevante em uma sociedade marcada pela aceleração dos ritmos de vida, pela exposição constante a telas e pela negligência crônica do descanso. Este artigo apresenta, de forma acessível, mas fundamentada na literatura científica, as fases que compõem o ciclo do sono e os principais distúrbios que podem comprometê-lo.

A arquitetura do sono

O sono não é um estado homogêneo que se prolonga uniformemente ao longo da noite. Trata-se, ao contrário, de uma sucessão de ciclos que se repetem várias vezes durante o repouso, cada um deles composto por diferentes fases dotadas de características fisiológicas próprias. A classificação contemporânea das fases do sono segue os critérios estabelecidos pela American Academy of Sleep Medicine (AASM), publicados pela primeira vez em 2007, que substituíram o sistema anterior de Rechtschaffen e Kales. O estagiamento do sono baseia-se em registros de eletroencefalografia (EEG), eletro-oculografia (EOG) e eletromiografia (EMG), conforme detalhado por Patel, Reddy e Araujo (2024) na revisão de fisiologia do sono.

A medicina do sono divide o repouso em dois grandes domínios: o sono não-REM (NREM, do inglês non-rapid eye movement) e o sono REM (rapid eye movement). O sono NREM, por sua vez, subdivide-se em três estágios distintos N1, N2 e N3, cada um representando uma profundidade crescente do repouso. Segundo Maciejewska-Skrendo e colaboradores (2023), o sono NREM corresponde a aproximadamente 75% do tempo total de repouso noturno. Um ciclo completo dura, em média, entre noventa e cento e dez minutos, sendo o primeiro ciclo da noite ligeiramente mais curto (entre setenta e cem minutos), e uma noite típica comporta de quatro a seis desses ciclos.

Estágio N1: a transição

O primeiro estágio do sono NREM corresponde ao momento de passagem entre a vigília e o adormecer. É uma fase breve e leve, que representa aproximadamente 5% do tempo total de sono, durante a qual a atividade cerebral começa a desacelerar. Nesse período, a pessoa pode despertar com facilidade e, frequentemente, sequer percebe que chegou a adormecer. São comuns nessa etapa as contrações musculares involuntárias conhecidas como mioclonias hípnicas aquela sensação súbita de queda que sobressalta o corpo. A respiração e os batimentos cardíacos tornam-se mais regulares, e os músculos começam a relaxar, ainda que de modo incompleto.

Estágio N2: o sono leve consolidado

O segundo estágio representa o início de um sono mais estável e ocupa a maior parte do tempo total de repouso, correspondendo, conforme as estimativas reunidas por Patel, Reddy e Araujo (2024), a cerca de 45% a 55% da noite. A temperatura corporal diminui, os batimentos cardíacos desaceleram e a consciência do ambiente externo reduz-se de maneira significativa. No traçado eletroencefalográfico, surgem padrões característicos chamados fusos do sono (sleep spindles) e complexos K, considerados marcadores fisiológicos importantes. Os fusos do sono, segundo as evidências de neuroimagem discutidas na literatura, parecem desempenhar papel relevante na consolidação da memória e na proteção do sono contra estímulos externos que poderiam provocar o despertar.

Estágio N3: o sono profundo

O terceiro estágio é conhecido como sono de ondas lentas (slow-wave sleep) ou sono profundo, e constitui a fase mais restauradora do repouso, correspondendo a algo entre 15% e 20% do sono total. Nele, a atividade cerebral é dominada pelas ondas delta, de grande amplitude e baixa frequência. Despertar alguém nessa fase é difícil, e a pessoa que é acordada subitamente costuma sentir-se desorientada e sonolenta por alguns minutos fenômeno denominado inércia do sono. É durante o sono profundo que o organismo realiza grande parte de seus processos de reparação: ocorre a liberação do hormônio do crescimento, a regeneração dos tecidos, o fortalecimento do sistema imunológico e a remoção de resíduos metabólicos acumulados no cérebro. A predominância do sono profundo concentra-se na primeira metade da noite, razão pela qual as primeiras horas de repouso são particularmente valiosas.

O sono REM: o palco dos sonhos

O sono REM distingue-se de modo notável das demais fases. Caracteriza-se pelos movimentos oculares rápidos que lhe dão o nome, por uma atividade cerebral intensa semelhante à do estado de vigília e por uma paralisia temporária da musculatura voluntária, fenômeno conhecido como atonia muscular. Essa paralisia tem função protetora, impedindo que o indivíduo represente fisicamente os sonhos que vivencia. É justamente nessa fase que ocorrem os sonhos mais vívidos e elaborados.

O sono REM desempenha papel crucial na consolidação da memória emocional, no processamento de informações complexas e no equilíbrio psicológico. Os períodos de sono REM tornam-se progressivamente mais longos ao longo da noite, concentrando-se sobretudo nas últimas horas de repouso. Por essa razão, quem reduz o tempo total de sono tende a sacrificar desproporcionalmente o sono REM, com prejuízos para a saúde mental e cognitiva.

A regulação do sono: o modelo de dois processos

A compreensão moderna de como o sono é regulado deve muito ao trabalho seminal de Alexander Borbély, que em 1982 propôs o chamado modelo de dois processos (two-process model), até hoje considerado o principal arcabouço conceitual da pesquisa em sono. De acordo com Borbély (1982) e suas reformulações posteriores (Borbély, Daan, Wirz-Justice & Deboer, 2016), o sono resulta da interação entre dois mecanismos distintos.

O primeiro é o Processo S, de natureza homeostática: corresponde à pressão de sono que se acumula progressivamente durante a vigília e se dissipa de forma exponencial durante o repouso quanto mais tempo permanecemos acordados, maior a necessidade de dormir. O segundo é o Processo C, de natureza circadiana, controlado por um marca-passo biológico localizado nos núcleos supraquiasmáticos do hipotálamo, que regula a propensão ao sono e ao despertar ao longo de um ciclo de aproximadamente vinte e quatro horas. Como ressalta Borbély (2022) ao retomar as origens do modelo, é a soma desses dois processos que determina a propensão total ao sono.

O ritmo circadiano é fortemente influenciado pela luz: a exposição à claridade pela manhã sinaliza ao organismo que é hora de despertar, enquanto a escuridão estimula a produção de melatonina, hormônio associado à indução do sono. A confirmação experimental das premissas do modelo veio, entre outros, com o estudo de Dijk e Czeisler (1995), que, por meio do paradigma de dessincronização forçada, demonstrou a contribuição aproximadamente equivalente dos componentes homeostático e circadiano à regulação do sono.

Os distúrbios do sono

Quando os mecanismos que regulam o sono são perturbados, ou quando as fases do repouso são interrompidas de forma recorrente, surgem os distúrbios do sono. Tais alterações têm consequências que vão muito além do cansaço diurno. A seguir, examinam-se os transtornos mais frequentes e relevantes.

Insônia

A insônia é o distúrbio do sono mais comum e caracteriza-se pela dificuldade persistente em iniciar ou manter o sono, ou ainda por despertares precoces seguidos da incapacidade de voltar a dormir, mesmo quando há oportunidade adequada para o repouso. Pode ser aguda, quando associada a eventos estressantes pontuais, ou crônica, quando se prolonga por meses. Entre suas causas figuram a ansiedade, a depressão, hábitos inadequados de sono, o consumo excessivo de cafeína e o uso noturno de dispositivos eletrônicos. As consequências incluem fadiga, irritabilidade, dificuldade de concentração e comprometimento do desempenho profissional e acadêmico.

No que diz respeito ao tratamento, a diretriz de prática clínica da American Academy of Sleep Medicine elaborada por Edinger e colaboradores (2021) emitiu uma recomendação forte em favor da terapia cognitivo-comportamental para a insônia (TCC-I), considerada a abordagem de primeira linha. Essa modalidade combina estratégias cognitivas, educação sobre a regulação do sono e técnicas comportamentais, como o controle de estímulos e a restrição do tempo na cama, sendo conduzida tipicamente ao longo de quatro a oito sessões. A recomendação foi posteriormente endossada pela World Sleep Society (Bjorvatn et al., 2023), reservando-se o tratamento medicamentoso para situações específicas e sob orientação médica.

Apneia obstrutiva do sono

A apneia obstrutiva do sono é um distúrbio respiratório grave, caracterizado por interrupções repetidas da respiração durante o sono, decorrentes do colapso parcial ou total das vias aéreas superiores. Cada episódio provoca uma queda na oxigenação do sangue e um microdespertar, frequentemente imperceptível para o indivíduo, que fragmenta o sono e impede que ele alcance as fases mais profundas e restauradoras. Estudos sobre a relação entre arquitetura do sono e apneia, como a revisão de Maciejewska-Skrendo e colaboradores (2023), observam que o estágio N3 é particularmente instável diante dos episódios obstrutivos, com frequente transição para o sono leve. Os sinais mais comuns incluem ronco intenso, pausas respiratórias observadas por terceiros, sonolência diurna excessiva e dor de cabeça matinal. Quando não tratada, a apneia aumenta consideravelmente o risco de hipertensão, doenças cardiovasculares, diabetes e acidentes. O tratamento pode envolver o uso de aparelhos de pressão positiva contínua nas vias aéreas (CPAP), dispositivos intraorais, mudanças no estilo de vida e, em certos casos, intervenções cirúrgicas.

Narcolepsia

A narcolepsia é um distúrbio neurológico crônico que afeta a capacidade do cérebro de regular adequadamente os ciclos de sono e vigília, atingindo aproximadamente uma em cada duas mil pessoas no mundo. Seus portadores experimentam sonolência diurna excessiva e ataques de sono incontroláveis, que podem ocorrer em momentos inoportunos. Em muitos casos, observa-se também a cataplexia, uma perda súbita do tônus muscular desencadeada por emoções intensas, como o riso ou a surpresa. Outros sintomas característicos incluem a paralisia do sono e as alucinações hipnagógicas, que surgem no momento de adormecer ou despertar.

Um dos avanços mais importantes da medicina do sono foi a descoberta da base neuroquímica da narcolepsia. Conforme demonstram Dauvilliers, Siegel e colaboradores (2015), a narcolepsia tipo 1 a forma associada à cataplexia decorre da deficiência de hipocretina (também chamada orexina), neuropeptídeo produzido no hipotálamo lateral, em razão da destruição de 85% a 95% dos neurônios responsáveis por sua síntese. Essa perda é evidenciada por concentrações de hipocretina no líquido cefalorraquidiano inferiores a 110 pg/mL, hoje considerada um marcador diagnóstico. As evidências, segundo os mesmos autores, favorecem fortemente uma etiologia de natureza autoimune em indivíduos geneticamente predispostos, sobretudo portadores do alelo HLA-DQB1*06:02. Embora não tenha cura, o transtorno pode ser controlado com medicamentos e ajustes na rotina.

Síndrome das pernas inquietas

A síndrome das pernas inquietas manifesta-se por uma necessidade irresistível de mover as pernas, geralmente acompanhada de sensações desconfortáveis descritas como formigamento, queimação ou inquietação. Os sintomas costumam intensificar-se durante os períodos de repouso, sobretudo à noite, dificultando o adormecer e fragmentando o sono. A condição pode estar relacionada à deficiência de ferro, a fatores genéticos ou a outras doenças subjacentes. O manejo envolve a correção de deficiências nutricionais, mudanças no estilo de vida e, quando necessário, tratamento medicamentoso.

Parassonias

As parassonias compreendem um conjunto de comportamentos anormais que ocorrem durante o sono ou nas transições entre o sono e a vigília. Entre elas figuram o sonambulismo, os terrores noturnos, os pesadelos recorrentes e o transtorno comportamental do sono REM, no qual a atonia muscular característica dessa fase falha e o indivíduo passa a representar fisicamente seus sonhos. Algumas parassonias são mais comuns na infância e tendem a desaparecer com o amadurecimento, enquanto outras, especialmente as ligadas ao sono REM em adultos, podem sinalizar condições neurológicas que merecem investigação.

Distúrbios do ritmo circadiano

Os distúrbios do ritmo circadiano ocorrem quando o relógio biológico interno se desalinha em relação ao ciclo natural de luz e escuridão ou às exigências sociais. São exemplos clássicos a síndrome do atraso de fase do sono, frequente entre adolescentes, e os transtornos associados ao trabalho em turnos e às viagens entre fusos horários, popularmente conhecidas como jet lag. Esses desajustes prejudicam não apenas o sono, mas também o humor, o metabolismo e o desempenho geral. A regularização da exposição à luz, a manutenção de horários consistentes e, em alguns casos, o uso de melatonina constituem estratégias úteis de tratamento.

A importância da higiene do sono

Diante da prevalência dos distúrbios do sono, a adoção de bons hábitos  reunidos sob a expressão higiene do sono — revela-se uma ferramenta útil de prevenção, embora a própria AASM (Edinger et al., 2021) ressalte que a educação em higiene do sono, isoladamente, não basta como tratamento da insônia crônica. Manter horários regulares para dormir e despertar, evitar o consumo de cafeína e álcool nas horas que antecedem o repouso, reduzir a exposição a telas à noite, garantir um ambiente escuro, silencioso e fresco e praticar atividade física regularmente são medidas que favorecem um sono reparador. A criação de uma rotina relaxante antes de deitar e a moderação no tempo passado na cama desperto também contribuem para a qualidade do descanso.

Conclusão

O sono é um pilar fundamental da saúde, tão importante quanto a alimentação equilibrada e a prática de exercícios físicos. Suas fases, cuidadosamente orquestradas ao longo dos ciclos noturnos e reguladas pela interação entre os processos homeostático e circadiano descritos por Borbély, cumprem funções específicas e insubstituíveis, da restauração física à consolidação da memória e ao equilíbrio emocional. Quando esse processo é perturbado por distúrbios como a insônia, a apneia, a narcolepsia ou as parassonias, os efeitos repercutem em todas as dimensões da vida. Reconhecer a relevância do sono e buscar auxílio profissional diante de alterações persistentes não é luxo, mas necessidade. Cultivar um sono de qualidade significa, em última análise, investir na própria longevidade e no bem-estar cotidiano.


Referências

Bjorvatn, B. et al. (2023). World Sleep Society international sleep medicine guidelines position statement endorsement of "Behavioral and psychological treatments for chronic insomnia disorder in adults: An American Academy of Sleep Medicine clinical practice guideline". Sleep Medicine, 109, 164–169.

Borbély, A. A. (1982). A two-process model of sleep regulation. Human Neurobiology, 1(3), 195–204.

Borbély, A. A. (2022). The two-process model of sleep regulation: Beginnings and outlook. Journal of Sleep Research, 31(4), e13598.

Borbély, A. A., Daan, S., Wirz-Justice, A., & Deboer, T. (2016). The two-process model of sleep regulation: A reappraisal. Journal of Sleep Research, 25(2), 131–143.

Dauvilliers, Y., Siegel, J. M., et al. (2015). Hypocretin (orexin) biology and the pathophysiology of narcolepsy with cataplexy. The Lancet Neurology, 14(3), 318–328.

Dijk, D.-J., & Czeisler, C. A. (1995). Contribution of the circadian pacemaker and the sleep homeostat to sleep propensity, sleep structure, electroencephalographic slow waves, and sleep spindle activity in humans. The Journal of Neuroscience, 15(5), 3526–3538.

Edinger, J. D. et al. (2021). Behavioral and psychological treatments for chronic insomnia disorder in adults: An American Academy of Sleep Medicine clinical practice guideline. Journal of Clinical Sleep Medicine, 17(2), 255–262.

Patel, A. K., Reddy, V., & Araujo, J. F. (2024). Physiology, Sleep Stages. StatPearls Publishing.

Rauf, B. et al. (2025). Orexin deficiency in narcolepsy: Molecular mechanisms, clinical phenotypes, and emerging therapeutic frontiers. Brain and Behavior, 15(10), e70984.

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Sobre o autor

Prof. Eder FreitasConta verificada Docente de Saúde e Negócios

Formado em 2 áreas do conhecimento saúde e negócios, fundador da Oxton Education, Oxton Lab e Oxton Journals

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